Internacional

Desigualdade entre países prolonga pandemia de covid-19

Status de pandemia pode ser rebaixado a qualquer momento pela OMS.

 

Por Vinícius Lisboa

O que define uma pandemia é a disseminação descontrolada de uma doença em todos os continentes, causando epidemias em todas as partes do mundo, ao mesmo tempo. Para pesquisadores ouvidos pela Agência Brasil, a covid-19 já não se comporta mais de maneira fora de controle na maior parte do mundo, mas a decisão de rebaixar o status de pandemia passa também pela possibilidade de manter recursos mobilizados para ajudar os países mais pobres.


Imagem Reuters/Massimo Pinca

O acesso às vacinas está entre os indicadores mais evidentes de que a resposta à pandemia ocorreu de forma desigual. Enquanto países como Chile, Cuba e Japão aplicaram mais de três doses por pessoa, mais de 70 países no mundo aplicaram menos que uma. Em todo o mundo, mais de 13,2 bilhões de doses foram aplicadas, sendo menos de 1 bilhão no continente africano.

Na última reunião do Comitê de Emergência do Regulamento Sanitário Internacional (RSI – 2005) sobre a Pandemia de Coronavirus de 2019 (COVID-19) na Organização Mundial da Saúde (OMS), as recomendações do grupo foram, entre outras, focar na vacinação e nas doses de reforço, melhorar a notificação de dados à OMS e aumentar a disponibilidade, a longo prazo, de vacinas, diagnósticos e terapias – medidas que requerem apoio a países com orçamentos menos robustos.

O comitê reconheceu que a pandemia de covid-19 pode estar se aproximando de um ponto de inflexão, em que os impactos da doença na mortalidade se manterão limitados pelo grande número de pessoas previamente infectadas e imunizadas. “Embora a erradicação desse vírus de hospedeiros humanos e animais seja altamente improvável, a mitigação de seu impacto devastador na morbidade e mortalidade é alcançável e deve continuar a ser uma meta prioritária”, afirmou o grupo.

O que falta para a pandemia de covid-19 acabar?

A chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios, Exantemáticos, Enterovírus e Emergências Virais do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Marilda Siqueira, acredita que o mundo vive um cenário favorável, e o Brasil, um quadro ainda mais favorável, com coberturas vacinais elevadas. Soma-se a isso a disponibilidade de antivirais desenvolvidos para o tratamento da covid-19 e que são capazes de reduzir a gravidade das infecções, permitindo que mais pacientes sejam curados.

“Mas esse cenário não é homogêneo em todos os países. Muitos países têm um cenário mais favoráveis que outros no que diz respeito à capacidade de leitos hospitalares, profissionais de saúde, e às vacinas. Quando a OMS ainda não declarou o fim da pandemia, ela tem nas mãos diferentes cenários. E para isso existem normas e critérios do regulamento internacional que discutem todos os cenários”, afirma.

O epidemiologista e professor da Universidade de Illinois Urbana-Champaign Pedro Hallal conta que, a cada nova reunião geral da Organização Mundial da Saúde, há uma expectativa de que a decisão de pôr fim à pandemia será tomada. O pesquisador afirma acreditar que a emergência sanitária deve terminar em breve, mas que a covid-19 vai continuar a ser uma doença com a qual vamos conviver.

“Estamos nos aproximando do final da pandemia. E, para quem entende o que o termo pandemia quer dizer, isso é mais nítido ainda. A gente não quer dizer que a covid vai acabar, a gente está dizendo que a gente vai chegar em um ponto em que o número de mortes diárias vai ser praticamente estável, e, assim, ela perde o requisito de estar fora de controle, que é o que caracteriza um surto epidêmico. A pandemia está próxima do fim, mas a covid, não”.

O virologista da Fiocruz Amazônia Felipe Naveca e o presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, Alberto Chebabo, veem o fim da pandemia como uma decisão política que também vai levar em conta a necessidade de corrigir desigualdades no acesso às vacinas e aos instrumentos de vigilância epidemiológica, ainda muito escassos nos países mais pobres.

“A gente caminha para isso [fim da pandemia], mas não é uma decisão fácil de ser tomada”, argumenta Naveca. “A gente tem um mundo muito desequilibrado. Há países em que a situação está muito mais controlada, em que o sistema de saúde é mais forte e consegue atender a população. E tem outros países mais pobres, com pouco avanço da vacinação e sistemas de saúde mais frágeis. Como a OMS pensa no todo, é nesse sentido que ainda está se debatendo bastante o fim da pandemia, porque quando se decreta esse fim, se tem uma diminuição nesses esforços”.

“A OMS não declara o fim da pandemia muito mais por uma questão de organização de atividades de controle da doença”, acredita Chebabo. “A gente entrou em uma fase em que, na maior parte dos países do mundo, a doença está sob controle. Mas a gente ainda tem uma inequidade muito grande no mundo inteiro, e principalmente na África e em países menores da América Latina. As coberturas estão muito díspares, e, talvez por isso, por uma questão estratégica, para ampliar a possibilidade de vacinar e mobiliar recursos, a OMS ainda não tenha declarado o fim da emergência de saúde pública. Mas eu acredito que nas próximas semanas a gente tenha uma declaração de fim desse estágio pandêmico”.

O vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, Renato Kfouri, considera que, apesar de depender de dados epidemiológicos, o fim da pandemia é muito mais um decreto administrativo e não representa uma mudança imediata na vida das pessoas.

“É uma questão muito mais de manejo administrativo das questões. É claro que vai depender do momento epidemiológico, sim, mas só na hora que questões de transmissão nos cinco continentes estiverem controladas, quando houver vacinas disponibilizadas e recursos de vigilância estruturados, a Organização Mundial da Saúde vai determinar o fim”, diz ele, que ressalta que a covid-19 ainda tem provocado picos epidêmicos e regionais no Brasil, mas que um comportamento endêmico é “o caminho natural”.

Quais são as ameaças de novas pandemias?

Em um mundo cada vez mais conectado por viagens internacionais e transações comerciais entre países, a capacidade de disseminação rápida de vírus respiratórios como o SARS-CoV-2 se mantém como um desafio para autoridades sanitárias e cientistas.

Felipe Naveca destaca que os coronavírus já demonstraram que são uma ameaça que veio para ficar, após terem causado três emergências de saúde pública relevantes em menos de 20 anos. Em 2002 e 2012, os coronavírus SARS e MERS provocaram epidemias que atingiram diversos países do Leste Asiático e Oriente Médio, o que já havia despertado a atenção da comunidade científica para a necessidade de se preparar para o surto seguinte, que começou em 2019, com o SARS-CoV-2.

“Em uma lista das possíveis ameaças de uma nova pandemia, os coronavírus certamente estariam entre elas, assim como o Influenza. Não tem como a gente achar que não vai acontecer, porque a história nos mostra que já aconteceu algumas vezes”, afirma Naveca.

“Esse foi o terceiro evento de emergência de um coronavírus de grande importância médica em menos de 20 anos. A chance de acontecer outro é grande. Ninguém acredita que seja em um futuro muito próximo, mas, impossível, não é.

Naveca acredita que os avanços tecnológicos propiciados pelos investimentos em sequenciamento genético e novas tecnologias de vacina na pandemia de covid-19 terão um papel importante na resposta da humanidade a possíveis novas emergências sanitárias.

“A gente vai viver outra pandemia. Se vai ser nessa mesma escala, eu espero que não. Mas novos desafios vão surgir”, acredita o pesquisador.

“Essas novas estratégias vacinais são estruturas mais facilmente adaptadas para novas linhagens e novos coronavírus. Se surgir uma nova variante de preocupação que mude o cenário, não seria da noite para o dia, mas todo o arcabouço de informações que já existe vai ser utilizado e vai se conseguir fazer uma vacina de emergência muito mais rápido. Todo esse avanço conta a nosso favor”.

O presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia concorda que os coronavírus são uma ameaça que precisa estar sob constante vigilância, assim como o Influenza, que provocou pandemias em 1918 e 2009 e voltou a causar preocupação pela disseminação da cepa H5N1, causadora da gripe aviária.

“São vírus que vieram para ficar e podem causar novas pandemias. Mesmo esse, SARS-CoV-2, com novas variantes, pode causar novos aumentos de casos e novas manifestações clínicas ainda desconhecidas da gente”, diz Chebabo.

“Tanto o Influenza quanto os coronavírus infectam outras espécies, e por isso não podem ser eliminados como os vírus que só infectam humanos, como sarampo ou poliovírus. Eles estão espalhados na natureza, e só essa questão já os torna importantes, mas, além disso, são vírus respiratórios, o que faz com que tenham a transmissão facilitada, sem precisar de um vetor. Não é necessário nem um contato íntimo, apenas contato próximo”.

O epidemiologista Pedro Hallal lembra que a história da saúde pública registra que eventos com a dimensão da pandemia de covid-19 são raros e acontecem apenas uma vez por geração. Mas surtos epidêmicos menores podem ser mais frequentes.

“Acho que a gente vai ter surtos epidêmicos, talvez mais frequentes do que a gente tinha normalmente, e talvez causados pelos próprios coronavírus.”

Apesar do otimismo, ele vê que as ações humanas que causam o desequilíbrio de ecossistemas e as mudanças climáticas contribuem para que a humanidade corra mais riscos de viver novas emergências globais de saúde pública. Vírus zoonóticos como o coronavírus, que podem saltar para seres humanos, ganham mais oportunidades quando esses animais são deslocados de seus habitats naturais.

“Se a gente continuar errando tanto na pauta ambiental, talvez a gente aumente o risco de ter uma nova pandemia na nossa geração. Mas, em geral, acho que a probabilidade não é muito alta.”

Marilda Siqueira também vê as mudanças climáticas como parte dos problemas que potencializam as ameaças de novas pandemias. Mas ela acrescenta que toda a interação homem-ambiente precisa ser incluída nessa discussão.

“Há também a nossa interação com as outras espécies por meio do desmatamento, e daquilo que preparamos para comer e sobreviver, e a forma como preparamos”, afirma ela, que defende o incentivo a mais pesquisas de vigilância com uma perspectiva de saúde única, que leve em consideração também a saúde animal.

“Na natureza, temos reservatórios animais que têm vírus circulando de forma contínua, inclusive coronavírus. E também o vírus Influenza, presente em várias espécies de aves migratórias, que cruzam continentes, e alguns mamíferos. Se a gente não tiver, dentro de um conceito de saúde única, investimento nessa interação animal-humano, nós vamos ter mais problemas.”

A virologista acredita que os avanços nos diversos campos da ciência envolvidos no combate à pandemia, assim como a formação de redes internacionais de pesquisadores, fortalecem a capacidade de a humanidade responder às próximas emergências sanitárias. Para isso, porém, também é preciso que governos e sociedades discutam o que funcionou e o que deu errado ao longo da crise da covid-19, para que as lições sejam aprendidas.

“Nós sabemos que vamos ter novas pandemias. A gente não sabe se será amanhã, daqui a dez anos ou daqui a 100 anos. As lições aprendidas são muito importantes para a preparação para novas pandemias ou epidemias, como a de dengue com que vivemos há décadas, ou a de chikungunya, que está em países vizinhos ao Brasil e pode voltar”.

Fonte – 20 – Agência Brasil

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